Naquela época eram longos os dias em que a chuva incessante, durante
três meses, tantos quando durava o inverno caía com uma cadência tal que ainda
hoje a recorda como se fosse ontem.
Parecia que o céu se abria e as nuvens choravam como se o mundo fosse
acabar inundando os campos e fazendo com que os rios galgassem as margens
transformando as planícies em redor em gigantescos lagos.
Por detrás da janela da sala apreciava ouvir o som da chuva que escorria
dos beirais das habitações vizinhas. Era como um bálsamo para a sua alma de
criança agitada.
As brincadeiras de rua eram proibidas naqueles dias, mas a caminho da
escola desforrava-se em momentos de descontraída brincadeira pulando sobre as
poças de água, muitas vezes geladas. Isto valeu-lhe muitas constipações e
alguns ralhetes da mãe.
Depois as brincadeiras com as irmãs e mais tarde a leitura dos seus contos
de fadas ajudá-la-iam a preencher esses dias e a criar o seu mundo do qual havia
ainda tanto para descobrir.
Num dia de trovoada ouviu-se um enorme estrondo. Um raio atingira a torre
da igreja mesmo ali próximo da sua casa danificando-a assim como a alguns
telhados de habitações vizinhas. O coração quase lhe saltou do peito com o
susto. Hoje a torre e o sino ainda continuam ali, sobranceiros ao rio, apesar
das muitas tempestades a que continuam a resistir.
Texto
Ailime
18.09.2015
Foto L.O.